Educar é integrar!

Há uns meses atrás, fui convidada a participar numa reunião de equipa do Centro de Desenvolvimento Infantil Diferenças. O objetivo desta participação seria apresentar uma comunicação acerca daquilo que se crê serem novas metodologias de trabalho escolar e qual o grau de inclusão alcançável por cada uma delas. Neste caso, a minha tarefa consistia em apresentar o modelo do Movimento da Escola Moderna

Não posso avançar sem informar o leitor acerca de algo que não é óbvio: apesar de ser conhecido pelo pomposo nome de Escola Moderna, este movimento (inspirado nos seus precursores da Escola Nova com Adolphe Ferrière, em Maria Montessori, em Ovide Decroly, etc) foi iniciado por Célestin Freinet na década de 20 do século XX (!), com trabalho prático, em inúmeras escolas públicas francesas, o qual motivou a constituição de um movimento internacional pela qualidade da educação pública e pelo acesso de todos os cidadãos ao conhecimento e à participação cívica.

Dito isto, pergunto como poderemos continuar a apelidar de novas metodologias propostas já tão consolidadas, com um século ou mais de existência? A verdade é que não faço a menor ideia… Continuarei a surpreender-me até ao fim dos meus dias… No entanto, o leitor deste artigo que ainda não soubesse que de nova esta metodologia apenas tem a denominação, ficará a sabê-lo a partir de agora. Poder-se-ia dizer que o Movimento da Escola Moderna é mais antigo que os filmes de Charlot!

A Modernidade, iniciada com o advento da Revolução Industrial, trouxe para o campo da Educação a escolarização do cidadão comum. Mas trouxe também algo desconhecido da humanidade até então – a normalização! Os seres humanos – especificamente, as crianças – passaram a ser tratados como um só objeto – o aluno (!) – do qual se espera um determinado número de aquisições, com resultados muito claros e práticos – a alfabetização para um melhor desempenho numa economia industrializada.

Se, por um lado, foi possível aceder ao saber letrado (uma dimensão até então exclusiva das elites), por outro, a educação que contempla a especificidade de cada ser humano foi deixada para segundo plano, acarretando todas as consequências que daí advêm.

Retomando a questão que me levou ao Diferenças e à sua excecional equipa, eu diria que os princípios implícitos em todo o Movimento da Escola Moderna e, especificamente, no método Freinet, são integradores, em primeiro lugar, por respeitarem o ser humano na sua individualidade mas também na sua natural convivência em sociedade; em segundo lugar, porque em momento algum almejam a uniformização das pessoas.

Assim, poderíamos enumerar cinco princípios básicos de ação dos educadores integrados neste movimento. São eles a valorização de aprendizagens significativas (tendo como ponto de partida a consciência e o respeito pela vontade natural de aprender de cada criança); a diferenciação pedagógica (partindo do princípio que não aprendemos todos do mesmo modo, ao mesmo tempo, no mesmo espaço); a cooperação (aprendemos com os outros); a autonomia; a cidadania ativa (espelhada na participação cívica diária, na relação com a comunidade, nas Assembleias de escola, etc).

Associados aos princípios de ação educativa estão diversas técnicas que Freinet elencou nos seus escritos e que ainda hoje são conhecidas por Técnicas Freinet da Escola Moderna. De entre elas, destaco as aulas-passeio, a correspondência inter-escolar, a imprensa escolar, o livro de vida, o texto livre, o plano de trabalho (geral e individual).

Já na década de 70 do século XX, na pequena vila das Aves, uma equipa de três educadores portugueses questionou o insucesso, o abandono escolar, a solidão profissional docente e a falta de significado da vida escolar para a sua comunidade. Foi assim que deram início ao projeto Fazer a Ponte. Partindo da base das técnicas Freinet da Escola Moderna, foram mais longe e deram corpo ao paradigma comunicacional, eliminando turmas, aulas, anos de escolaridade; pondo fim ao isolamento de educadores, crianças e pais; abrindo a escola à comunidade.

Será difícil imaginar o funcionamento de uma sala de aula na qual o professor não é o protagonista mas sim parte de um todo que se relaciona e trabalha em conjunto… Será ainda mais perturbador da normalidade imaginar uma escola sem turmas, sem anos de escolaridade, sem aulas, sem testes… Mas a realidade é que ambas existem, são extremamente integradoras e alcançam resultados.

Nas mais diversas situações perguntam-me pelo enquadramento legal destas práticas, ao que respondo: está tudo previsto na Lei de Bases do Sistema Educativo português e reforçado em decretos-Lei. Ainda que assim não fosse, é obrigação de um educador atuar de modo ético, apoiando as crianças no seu desenvolvimento pleno, na sua cidadania ativa, na sua integração social, na sua felicidade. É urgente que o façamos, juntos!

Para conhecer outras escolas inspiradas pelo projeto Fazer a Ponte:

Magda Barradas Costa

Aprendiz

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